30.9.06
















A sua identidade é nosso segredo.

Lamento que seja assim.

Insisto que é a minha dor que diz que antecede a sua letra.

No nosso enlaço realmente escorre sangue, sangue que já quase não tenho.

Entenda, precisamos ir além disso. Não precisamos de tanta poesia.

28.9.06

“Um acontecimento vivido é finito. Um acontecimento lembrado é ilimitado”

“Só conhece realmente uma pessoa quem a ama sem esperança”


W. Benjamin

24.9.06

No corpo feminino, esse retiro

No corpo feminino, esse retiro
- a doce bunda - é ainda o que prefiro.
A ela, meu mais íntimo suspiro,
pois tanto mais a apalpo quanto a miro.

Que tanto mais a quero, se me firo
em unhas protestantes, e respiro
a brisa dos planetas, no seu giro
lento, violento... Então, se ponho e tiro

a mão em concha - a mão, sábio papiro,
iluminando o gozo, qual lampiro,
ou se, dessedentado, já me estiro,

me penso, me restauro, me confiro,
o sentimento da morte eis que o adquiro:
de rola, a bunda torna-se vampiro.

Drummond

22.9.06

Fique à vontade. Sente-se e apóie seus pés sobre a pequena mesa à sua frente. Daqui irei lhe desenhar. Não irei desenhar o rosto mesmo não tendo que decidir a cor dos olhos, já que a tinta é apenas negra, e nem a cor dos cabelos, já que são negros. Não tenho este dom. Resta-me o seu pequeno corpo. Só sei reproduzir simples. Ficará simples. O traço da tinta negra sobre o branco do papel dará a sua cor, a mesma dos dentes sobre o fundo negro e úmido da boca. Uma tatuagem. Teu colo. A mão que abraça o livro. O livro como extensão de teu corpo. Teu corpo como traço. Teu corpo não é um traço. Compreendê-la é um desafio e não só curiosidade. Não posso além de traços. Sozinho posso muito pouco. Do alto não há compreensão. Não se compreende sem contato. É do contato que há. Só, não compreenderei os limites do que posso traçar, o que me é possível. Não vá embora antes que eu a compreenda. Não vá embora antes que você me compreenda. Não vá embora antes que eu desça a escada. Não vá embora porque desci a escada e você não estava mais sentada com os pés sobre a mesinha. Não vá embora antes da compreensão que não houve.

18.9.06

Blue jean baby, L.A lady
Seamstress for the band
Pretty eyed, pirate smile
You married the music man
Ballerina, you must've seen her dancing in the sand
And now she's in me, always with me
Tiny dancer in my hand

Jesus freaks out in the street
Handing tickets out for Gold
Turning back she just laughs
The boulevard is not that bad

Piano man he makes his stand
In the auditorium
Looking on she sings the songs
The words she knows
The tunes she hums

But oh how it feels so real
Lying here with no one near
Only you and you can hear me
When I say softly, slowly

Hold me closer tiny dancer
Count the headlights on the highway
Lay me down in sheets of linen
You had a busy day today

É o que escuto agora, 30 de novembro de 1971.
Nessa época eu não teria largado o tabaco e, não sei como, beberia bem mais.
E nunca ficaria até tarde decorando o que só se aprende por prazer.

16.9.06

Olho o tamanho deste quarto. Olho os livros amontoados, a poeira sobre os moveis, a laranja à minha frente. Fico por minutos olhando as coisas deste quarto. Como a minha cama é grande, maior a cada manhã. Vejo a varanda e a porta de vidro pela qual o sol passa difuso. Olho para as janelas fechadas para a minha segurança. Vejo preás correndo pelo chão.
É correto insistir em ser ouvido se isto me leva a perder a voz?

12.9.06

Cada um com a sua vidinha,
Com as suas inúteis experimentações sintático-semânticas para encobrir a completa falta de jeito e imaginação,
Com os seus preconceitos de época substancializados em sonhos, pior, em projetos.
Com seus rodeios infinitos sobre a existência finita e só simples.
Com os seus ouvidos tampados.

Como disse o outro:
“Nós nos divertimos como impessoalmente se diverte; lemos, vemos e julgamos a literatura e a arte como impessoalmente se vê e se julga; mais ainda, separamos-nos da ‘massa’ como dela impessoalmente se separa; nos ‘indignamos’ com aquilo com que impessoalmente se indigna.” SuZ

E como Eu digo:
“Chame-me de desgraçado, infeliz. Deixe estar e me deixe só.”

notas de um dia de cão. esse é o nome do livro. um livro a duas mãos.