3.1.06

"Para habermas, a demanda política por uma maior reflexividade na formação da opinião coletiva tem como pressuposto experiências privadas que se originam na esfera íntima da pequena família. Este é o lugar na qual se origina historicamente a privacidade no sentido moderno do espaço de exercício de uma interioridade livre e satisfeita. O status do homem privado, como dono de mercadoriais e pai de família, completa-se com a compreensão política que a esfera pública burguesa faz de si mesma. Antes de assumir funções políticas, no entanto, o processo de autocompreensão das pessoas privadas adquire a forma de privacidade. Essa esfera pública literária não é originariamente burguesa, mas sim uma herança da aristocracia cortesã transmitida à vanguarda da burguesia que mantinha contato com o "mundo elegante".
O crescimento das cidades vai possibilitar, a partir da proliferação da cultura dos cafés, dos salões, etc., a institucionalização da esfera pública. Os herdeiros burgueses do humanismo aristocrático, no entanto, logo passam a conferir caráter crítico às suas formas de esfera pública burguesa. A partir de 1750, também as novas formas literárias dominantes assumem formas especificamente burguesas como o drama burguês e o romance psicológico, ou seja, adquirem formas que propiciam tematizar a forma especificamente burguesa da nova subjetividade que se constitui nessa época. A pequena família burguesa representa um forma de comunidade distinta tanto da família aristocrática como da família camponesa. A esta sociabilidade original corresponde uma nova forma de arquitetura das casas, garantindo um espaço de privacidade par cada um dos integrantes da família, assim como formas de convívio que se destinam a exercitar o novo tipo de individualidade que se constitui. A passagem da carta ao romance psicológico, como forma paradigmática de problematização das questões existenciais e subjetivas, já aponta para o maior grau de abstração e de elaboração da reflexividade que se institucionaliza."

Jessé Souza traduzindo Habermas em "A modernização Seletiva", página 62.

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notas de um dia de cão. esse é o nome do livro. um livro a duas mãos.