17.6.07

O profano ressurge

Você me olha com os mesmos olhos de sempre. Não os entendo, como sempre fiz, como um chamado ou um trem qualquer que só existe entre nós. Estou começando a entendê-los, agora, apenas como olhos que sempre me olham e nunca vou saber o porquê. Às vezes grandes e claros, às vezes pequenos.

Não há um dia que eu não pense em você. Vem acompanhada duma tristeza. Uma tristeza leve a qual já me acostumei.

7.6.07

Um cansaço que pesa há anos me faz adormecer mais do que o tempo que me pertence. Você seguia e eu observava a paz de quem se despedia de um dia bem vivido. Angustiado sentei junto aos outros poucos que permaneceram. Se por acaso acordássemos no meio da vigília, quem sabe, não houvesse angústia. Se o mundo se move ou não, se as pessoas seguem ou fazem círculos, sobre isso quem pode dizer? Mas quem dirá que não é movimento? Você passa e eu fico, patético. Sento na grama e fito todos. Vejo também que daqui onde estou estou fora do mundo. Ou digo isso por que não posso ver seu limite e nele estou imerso e há onde não há cor? Essa segregação do mundo e esse sentimento preto e branco do mundo. Uma obra de Dreyer sem promessa de ressurreição alguma. Tem também a muda contemplação.

Nunca tinha percebido como seus traços se parecem com os de uma pintura renascentista. Tem um toque indefinível que te concede um encanto. É coisa sutil que parece ser o sorriso de um contorno, e não o contrário.

E essa promessa de que um dia vou misturar-me a todas as cores do mundo, e misturar-me também a ti.



Porque tenho que compará-la sempre a algo supremo ou maldito? Por que não digo que seu traços se parecem com nenhum outro?

5.6.07

Em dias de tristeza e tédio, nada melhor do que dormir.
Morre-se por algumas horas e reanima.

1.6.07

OLHOS NÃO SE COMPRAM

Do cinema lindo & phoda de existir e de como uma mulher pode encantar nos detalhes de nós dois. Quando ela pede pra gente virar os olhos ou fechá-los bem fechados. Só enquanto troca a calcinha, vupt, o barulhinho do elástico, mesmo com toda intimidade desse mundo, às vezes intimidade de anos, vale, vale. Só enquanto troca o sutiã, biquíni, parte de cima, ajeita a parte de baixo, areia do doce balanço da beira dos mares, só enquanto tira uma toalha do banho, primeira viagem, só enquanto está lindamente menstruada e quer guardar-se, embora saiba que atravessamos com amor e gosto todo o seu mar vermelho e ainda mais mares aparecessem a cada mês. “Feche os olhos”, diz. “Vira o rosto”, safadeza-se, diva sob seguras telhas. Só para manter o suspense do cinesmascope debaixo do mesmo teto. “Pronto, pode olhar”. Ai ela ressurge mais linda ainda, cabelinhos molhados, com aqueles cremes todos da Lancôme ou com simples sabonetes Dove ou aqueles de nove em cada dez estrelas de Hollywood, Lux, deluxe, eu morro nesses lapsos de tempo, elipses do desejo, frações de segundo que são eternas de olhos fechados para quem meus olhos na terra, que há de comê-los inté os aros dos óculos e as safenas, mais abriram e justificaram seu brilho castanho mesmo em dias de torpor e existência de pára-brisas lusco-fusco.

Xico sá

Retirado do Blog: O Carapuceiro

30.5.07

Soneto da Hora Final

Será assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente
O beijo leve de uma aragem fria.

Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de treva aberta em frente.

Ao transpor as fronteiras do Segredo
Eu, calmo, te direi: – Não tenhas medo
E tu, tranqüila, me dirás: – Sê forte.

E como dois antigos namorados
Noturnamente triste e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.


Vinicius

27.5.07

O seu silêncio. O que silencia me reduz a observá-la e ser observado.

O seu silêncio. Por deus, é insuportável aguardar a certa não resposta.

O seu silêncio. Me mande para o inferno ou sua casa e não cale o que a mim pertence.

O seu silêncio.

notas de um dia de cão. esse é o nome do livro. um livro a duas mãos.