A primeira vivência que chamei de amor foi justo aquela que
não escolhi. Lembro-me do dia em que visitei um lar e, lá, ela estava. Ttudo antes
mesmo de eu estar pronto para a vida. Ora, a vida era para ser construída ao
seu lado. O mundo estava ainda por se fazer.
A segunda foi um ato da razão. Fiz minha escolha acreditando
já saber distinguir o dia da noite, eu e outros, subsumir conceitos, e que o
mundo, na verdade, me constrói junto com as minhas obras. Insistia em seguir
meus juízos, pois tinham fundamentos palpáveis: as minhas lágrimas. Acreditava
estar certo em perseguir a vida que escolhi, mesmo que a vida de minha escolhida
já estivesse em progresso e nunca próxima de mim.
Hoje, creio estar em liberdade.
“Mas, estas a fugir e é somente isso o que faz. Isso é
liberdade?”
Mas consigo novamente escutar Debussy, belo como se
pertencesse somente a mim e antes de tudo.
O desejo de sofrimento alheio utiliza-se de meios mesquinhos,
vulgares. E ainda há quem pense que poderia ser realizado de maneira mais nobre,
de maneira profunda. Justificar-se-ia esta escolha somente se houvesse a intenção
de infligir sofrimento como meio para algo superior. Não é o caso. Há apenas o
gozo como um fim em si mesmo. E isso passa.
Encenado, forçado, desesperado, artificial, cômico, vulgar.
Sim, é o só que vejo onde havia a admiração que a tudo inicia.
Sem moralismos, dinheiro e
política, andam tão juntos que fica difícil delimitar
o que é próprio de um e de outro no alcance de quaisquer fins. Quando focamos no tipo do cartola, o
futebol torna-se lamentavelmente, aqui com moralismos, uma instituição a mais a ser considerada em nossas análises sobre o Brasil. Essa figura possui em suas mãos um recurso simbólico e financeiro impar, utilizado com maestria por alguns. Um texto do Juca Kfouri do dia 10 deste mês é de interesse na discussão.
Lamentável é a posição do
Cruzeiro Diz o
Cruzeiro que é “lamentável” que o Santos tenha decidido ir com os reservas para
Fortaleza onde enfrentará o Ceará neste fim de semana. Tudo
porque o Santos começa a poupar o que tem de melhor com vistas ao Mundial de
Clubes no Japão. Ora,
lamentável é o Cruzeiro estar na posição em que está, graças a um cartola que
enriqueceu à custa do clube e que o abandonou depois que obteve imunidade senatorial
num golpe articulado pelo ex-governador das Minas Gerais. Lamentável
é o Cruzeiro ter ficado sem estádio para jogar em Belo Horizonte, graças à
irresponsabilidade e incompetência de quem prometeu que o estádio da
Independência ficaria pronto para substituir o Mineirão. Além do
mais, como muitos já lembraram aqui, o Santos, porque enfrentaria em seguida o
Peñarol pela Libertadores, jogou no primeiro turno, em Sete Lagoas, com seus
reservas contra o Cruzeiro, que não reclamou, embora também não tenha vencido,
só empatado, 1 a 1. O Santos
tem de olhar para seus interesses e ponto final.
O Perrella é um cartola que com conseguiu não somente enriquecer, como adentrar no sistema político e rapidamente ir para o topo, ocupando uma cadeira do Senado. Bem, pode-se argumentar que o fato de ter conseguido montar um bom time durante gestões passadas o legitimaria a aceitar como prêmio um cargo político dos torcedores de seu time, mesmo que dúvidas sobre o legado, ou custos de longo prazo, que pode ter imposto ao time. O fato de feito isso nas costa do Cruzeiro é só detalhe aqui. Por exemplo, do outro lado há o Alexandre Kalil, cartola do Atlético Mineiro, que não me surpreenderia se qualquer dia aparece-se barganhando com sua imagem no mercado políticocomo um político, precisamente como candidato a deputado federal. Como todo bom cartola, já deve negociar sua influência crescente sobre a torcida atleticana nos bastidores de um PSDB.O video abaixo é uma amostra do que digo e que Kalil e Perrera são farinha do mesmo saco - como também são um Andrés Sánchez e uma Patricia Amorim.
Observem que a coisa só cresce quando ampliamos os atores e instituições envolvidas: CBF, ANAF, o esfacelado clube dos 13, federações estaduais de futebol, os campeonatos estudais, nacionais e internacionais. Nesse vasto mercado, a fazendo de 60 milhões do Perella é mato. Os 420 milhões de impostos para o estádio do Corinthians, só não causam espanto maior que os quase 2 bilhões, até o momento, para as obras da copa. Não há como não voltarmos, quando se começa a pensar o futebol, para o dinheiro e o poder que garante sua concentração.
O futebol é algo que possui sua beleza e peso na formação moral brasileira - tem quem não goste, tem quem é indiferente, porém quem acompanha, gasta tempo e grana é a maioria. E isso não vai mudar tão cedo.
Falemos a verdade. Se eu fosse um escritor não estaria num blog - já descarto o tal do poeta porque realmente não tenho saco para poesia. Mas quando sou, não dou a mínima para o blog. Não leio blogs porque sempre são bobagens pessoais sem nenhum sentido para mim, além de serem muitos bem pretensiosos. Sempre me interessei por opiniões sobre coisas que não coisinhas cotidianas. Convenhamos, quem realmente acha que sua vida pessoal é algo que deva atrair a atenção alheia imersa num mundo tão extraordinariamente surpreendente? Ok, esse mundo é um agregado dessas bilhões de pessoas insignificantes. Sim, mas o agregado em pouco se assemelha a essas vidas isoladamente. Opa, temos aqui uma grande sacada: quem puder descrever essa linha tênue entre nossas vidas sem muita graça com o todo fará literatura de verdade e ciência. Mas se ficar somente de um lado ou de outro, ou no meio, será outro delirante sem apelo a percepção ampla. Um pouco de objetividade é igualmente importante, não podemos compartilhar significados sem ficar apelando demais para que haja uma correspondência imediata entre nossas sutilezas e o entendimento do leitor. Mesmo que boa vontade e imaginação exista do outro lado, ambas fundamentais, a inteligência, que é o que da consistência na leitura, falta bastante. O nível no geral é bem baixo e não se pode esperar muito. A maior audiência sempre são de textos que se utilizam da ignorância de nossos leitores - e nem tô falando das asneiras do povo colorido e semianalfabeto da comunicação social. Estou falando de quem tem astucia de utilizá-la: sim, ela existe e pode ser canalizada. Não há sutilezas literárias e cotidianas que valorizam o texto e a inteligência do leitor nesse mundo. Por isso me mantenho firme em não desperdiçar com eles meu tempo mesmo gostando muito de ler.
Poderia esticar isso por muito mais linhas. Mas a preguiça é tanta que irei voltar para meu livro que lá para os quarenta conseguirei terminar.
A incapacidade de algumas pessoas de mente mais conservadora em
aceitar os benefícios associados a programas de redistribuição de renda
irritam-me por vezes mais que as inconsistências de teoria econômica
propaladas pelo pessoal mais à esquerda. Ser contra programas como o
Bolsa Família, por exemplo, além de ser errado, cria espaço para ataques
que respingam sobre a credibilidade de outros aspectos da teoria
econômica mainstream.
Para redistribuir, é preciso taxar, e taxação gera distorções e afeta
adversamente os incentivos a produzir, investir, etc. Mais
redistribuição, portanto, levaria a menos crescimento potencial com base
nesse raciocínio incompleto.
O ponto é que esse é apenas um lado dos programas de redistribuição, o
lado do custo. Porém, tirar recursos de quem tem mais para dar a quem
tem menos pode levar a aumento do produto da economia. Ao aliviar a
restrição orçamentária dos mais destituídos, a transferência de renda
pode facilitar investimentos em capital físico e humano que não apenas
resultam em saída da zona de pobreza para parcela da sociedade, mas
também em aumento da produtividade total da economia (pois sem as
transferências tais investimentos nunca ocorreriam, levando a
desperdícios sob a forma de capital físico e humano que jamais se
constituiriam). Esse benefício, que pode ser muito grande em países
extremamente desiguais como o Brasil, é quase sempre deixado de lado
tanto pelos críticos como pelos defensores dos programas de
transferência, que focam quase exclusivamente na questão da equidade.
Minha impressão a partir de conversas com pessoas de ideologia
conservadora é que na sua opinião “quem se esforça consegue subir na
vida, sem necessitar ajuda do governo”. E os conservadores sempre tem um
bom exemplo no seu círculo mais próximo para “corroborar” essa
equivocada teoria.
A associação entre esforço e sucesso econômico é seguramente positiva
numa amostra ampla de indivíduos, mas daí para dizer que o segundo
resulta invariavelmente do primeiro é um passo enorme demais. Quem nasce
na pobreza apenas com muita dificuldade consegue dela se desvencilhar.
Esses relatados casos de sucesso são, na verdade, as proverbiais
exceções que corroboram a regra.
A pobreza gera uma armadilha de auto-perpetuação intergeracional.
Primeiro porque o capital humano dos genitores afeta enormemente o
capital humano dos filhos. Segundo porque os mercados de crédito são
muito pouco acessíveis aos mais pobres, dado que esses não tem colateral
para oferecer em troca de empréstimos (que serviriam para financiar
educação, ou pequenos empreendimentos, por ex). Terceiro porque os mais
pobres, ao contrário da elite, têm menos acesso a “conexões” (no bom e
no mau sentido do termo) capazes de puxar-lhes para fora da armadilha em
que nasceram.
Programas de transferências de renda condicionais ajudam a afrouxar
as restrições que tornam a pobreza uma armadilha para quem nela nasce.
Precisamos apoiá-los e aperfeiçoá-los, não execrá-los.
Com o passar dos anos fica mais
difícil manter na mente a sequência em que os acontecimentos se deram. As
lembranças de minha vida – todos aqueles sons e imagens, quando as quero ou quando
me visitam – adensam-se em um mesmo instante com o aumento da distância. A linha do tempo vai
se entortando, girando em torno de muitos eixos, dando nós que não sei como
desfazer com minha memória. A linha vai se expandido para os lados. Tudo se
torna plano.
Os acontecimentos mais recentes
se colocam por si em uma fila que me segue – se olho para trás, estão ali
comportados, sorrindo para mim.