1.12.07

Acordar

Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,
Acordar da Rua do Ouro,
Acordar do Rocio, às portas dos cafés,
Acordar
E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.
Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,
Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.
À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma,
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.
Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne,
Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,
Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom,
São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,
Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes,
Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,
Seja
A mulher que chora baixinho
Entre o ruído da multidão em vivas...
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
Cheio de individualidade para quem repara...
O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã,
Tudo isto tende para o mesmo centro,
Busca encontrar-se e fundir-se
Na minha alma.
Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.
Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.
Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...
Deita-me as mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...
Meu coração chora
Na sombra dos parques,
Não tem quem o console
Verdadeiramente,
Exceto a própria sombra dos parques
Entrando-me na alma,
Através do pranto.
Dá-me rosas, rosas,
E llrios também...
Minha dor é velha
Como um frasco de essência cheio de pó.
Minha dor é inútil
Como uma gaiola numa terra onde não há aves,
E minha dor é silenciosa e triste
Como a parte da praia onde o mar não chega.
Chego às janelas
Dos palác ios arruinados
E cismo de dentro para fora
Para me consolar do presente.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...
Mas por mais rosas e lírios que me dês,
Eu nunca acharei que a vida é bastante.
Faltar-me-á sempre qualquer coisa,
Sobrar-me-á sempre de que desejar,
Como um palco deserto.
Por isso, não te importes com o que eu penso,
E muito embora o que eu te peça
Te pareça que não quer dizer nada,
Minha pobre criança tísica,
Dá-me das tuas rosas e dos teus lírios,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também.

Álvaro de Campos

28.11.07

Palavras

O texto é espontâneo. Brota tanto das obrigações acadêmicas quanto de um semblante leve. De um livro imposto surge uma prazerosa leitura ocasional que gera mais prazeres. Não subestime nenhum livro! (até o Paulo Coelho, que não li e não gostei...) Engraçado!, tenho usado a palavra “semblante” muitas vezes e só agora percebi isto, também uso muito “engraçado”. O gosto pela palavra “semblante” veio após uma procura no Mirador. Já a palavra “inexorável”, que gosto e nem uso tanto, surgiu d’O Amanuense Belmiro, livro imposto a princípio. Neste caso, a princípio, o dever transformado em prazer para suportar de bom grado o fardo e, por fim, o prazer lutando para não voltar a ser dever. Coexistir, talvez. Não me lembro de onde tirei boa parte das palavras que gosto. Sei que algumas foram-me dadas por pessoas que gosto em suas “casas” e “moradas”. Outras foram roubadas, “certamente”. “Resta” falar também das que abracei em momentos difíceis e deram coragem de ver os “sorrisos” como promessa e certeza de uma vida menos triste. Também ensinaram-me a versar sobre as chatices que encontramos nas diversas “esquinas” da vida. A “miséria” que veio de uma leitura de anos atrás uso para falar desses medíocres e mediocridades. Pena que tenho pouca pena e memória para usar só palavras que gosto, mas tenho imaginação para transformar cada palavra que uso em minha mais nova “namorada”.

24.11.07

iii)

O descanso não veio como eu esperava. Um mês de trabalho árduo e pouco resultado. O engraçado é que só percebo que sou outro quando tento voltar a agir normalmente. Bem, o que eu esperava deste fim de semana livre de obrigações? Não quero beber e nem me perder pela cidade. Isto já se tornou outra rotina. Se retorno à leitura, volto a olhar pela janela e pedir temporais para que a vida dos demais pare e só recomece quando eu estive livre do fardo que escolhi (isto não mais parece ser uma escolha). Não posso ficar esperando que as coisas me esperem. Também acho que não devo segui-las. O problema de tudo, aqui, é no fim das contas fazer pouca ou nenhuma diferença tanto sofrimento para se alcançar algo “bom’ ou que pelo menos nos dizem ser. Veja este diálogo: “Vem comigo?”, “Sim”, ”Então vamos”. Quantas vezes fiz o pedido que é a primeira frase. É uma frase simples. Tudo podia ser mais simples. Eu podia ser mais simples, com poucos abismos.

Em exatamente dois meses completarei mais um ano na minha vida (realmente o tempo não para) e não acredito muito que frases como essas poderão algum dia resultarem em algo. “Algum dia” não existe. A fé não quer voltar com a idade.

Rilke

O Solitário

Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.

Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,

ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias que o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso.

Rainer Maria Rilke


Tradução: Augusto de Campos

20.11.07

Se Fosse Alguma Coisa, Não Poderia Imaginar

Monotonizar a existência, para que ela não seja monótona. Tornar anódino o quotidiano, para que a mais pequena coisa seja uma distracção. No meio do meu trabalho de todos os dias, baço, igual e inútil, surgem-me visões de fuga, vestígios sonhados de ilhas longínquas, festas em áleas de parques de outras eras, outras paisagens, outros sentimentos, outro eu. Mas reconheço, entre dois lançamentos, que se tivesse tudo isso, nada disso seria meu. Mais vale, na verdade, o patrão Vasques que os Reis do Sonho; mais vale, na verdade, o escritório da Rua dos Douradores do que as grandes áleas dos parques impossíveis. Tendo o patrão Vasques, posso gozar a visão interior das paisagens que não existem. Mas se tivesse os Reis do Sonho, que me ficaria para sonhar? Se tivesse as paisagens impossíveis, que me restaria de possível ?

(...) Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa, não poderia imaginar. O ajudante de guarda-livros pode sonhar-se imperador romano; o Rei de Inglaterra não o pode fazer, porque o Rei de Inglaterra está privado de o ser, em sonhos, outro rei que não o rei que é. A sua realidade não o deixa sentir.


Fernando Pessoa, in 'Livro do Desassossego'

14.11.07

Ser sol

Tento procurar palavras como sempre. O cansaço diz que não adianta mais. Palavras na poeira da mesa são só sujeira. Em alguns casos é como uma pá de cal. Bem, tenho um pano para isso. Há um violão me chamando, For killing the past and coming back to life. O sol da manhazinha acima de todas as nuvens negras, sempre lá. Amanhã vou acordar cedo. O sol que irradia a pedra que sou. Ser sol é o ponto. Fique comigo para sempre, seja minha namorada, não largue minha mão. Quando cheguei aqui pensei que seria mais fácil viver, que era só escrever. Infinitos bites. No mundo tem tanto medo, timidez e acanhamento de ser sol, emanar. Medo de ser jardim, de chamar as borboletas. Chegaremos lá, bem alto. Iremos planar, tomar vento na cara, precipitar sobre as pedras. Quis só a beleza, a sinceridade. Todos têm tantos problemas. Quanta infelicidade e um sol apenas. Quero saber se lê nosso mundo, se pisa na mesma grama do que eu. Não pode só eu estar só, que só eu chore. Paixão, tesão, amor, sexo, calor, nós. Esperem por mim, estou indo para onde há luz.

notas de um dia de cão. esse é o nome do livro. um livro a duas mãos.