15.2.07

Uma fervorosa aposta que fiz nas palavras como solução, perdi. Nessas sagradas criaturas anteriores a tudo que sou, ainda creio da boca dos outros. Ah! Toda atenção dei a elas; fiz órfão o arder de meus dedos, ri dos que diziam que de um miserável só os braços importam, ignorei que nem todos infelizes têm ouvidos e olhos.

Aos deprimidos não posso dizer: “Ajudem-me, sou como vós”. Não me importa a dor alheia, sempre sou mais forte que os demais. São todos tão fracos. Far-me-iam um mostro se souberem o que passa em meu coração. Alguém gostaria de escutar-me? Alguém suportaria escutar-me e não temer a minha companhia? Nunca irei saber.

Ela teria me escutado já que me lia. Ela foi a minha maior aposta mesmo sendo ela tão ridícula. Tenho vergonha de meus vícios e digo até que não os tenho e ela, por sua vez, se gaba dos seus como se fosse eles e o que tem para além da si e falta de graça. Uma dona triste. No mais, que o diabo a carregue porque não preciso do amor dos fracos. No entanto, temo ainda amá-la.

30.1.07

Parar de escrever é única forma de parar de se repetir. Não há como não se repetir se é uma mesma coisa que lhe atormenta.

Quem devo escutar senão os meus intestinos!

A vontade como expressão da autonomia é coisa nossa. Há alguns séculos que insisto nisso. Lembro da primeira vez que me veio a idéia de escrever em primeira pessoa sobre a possibilidade de se escrever em primeira pessoa e não sentir culpa. Santo Agustinho me disse para procurar algo mais dentro de mim que esperar a vida passar devagar. E perguntei para o santo: “Dentro?” Não era apenas olhar para dentro. O olhar capta apenas onde há luz; as trevas podem apenas ser adentradas nunca contempladas. Adentrar-me para encontrar o que jamais verei não é uma novidade para aceita facilmente. O santo disse: “É rapaz, não dá para prosseguir sem passar por si mesmo...” O santo certamente sabia que ao contar qual o caminho para virtude, me ensinaria a sofrer segundo um propósito. Ora, foi à primeira vez que soube o significado de “sofrer” e que os propósitos são para os santos.

Na noite passada lembrei-me do Velho Santo que agora tenho em minha estante e escrevi:

Parar de escrever é única forma de parar de se repetir. Não há como não se repetir se é uma mesma coisa que lhe atormenta. Dostoiévski era um atormentado - de onde viria tanto sofrimento? Não escrevia porque não conhecia a sintaxe, e sim, as palavras. Lembro da primeira vez que ouvi a palavra depressão. “Toda a família está preocupada com a depressão em que está. Ela já não cuida mais das crianças e que qualquer dia vão encontrar ela morta. Depois que ele morreu (...)” Eu não tinha a mínima idéia do que era depressão, eu só comecei a compreender anos mais tarde quando descobri que a palavra solidão por si só é vazia de significado e que se houvesse significado não mudaria nada. Pela depressão fui levado a que nada há. Hoje falo de angústia e não somente depressão por compreendi que há momentos em que me dobro sobre mim mesmo e faço-me só.

O tormento que me arrastava todos os dias para cá, por um pouco mais de um ano, não o vejo mais pelas manhãs. Porém minhas palavras obrigam-me a vê-la.

Há uma pilha de livros aqui em frente e quero ler todos. Ler é agradável. Mas não tenho a vida inteira para ler tantos livros, tenho apenas alguns dias. A vontade é tão preguiçosa. Lembro de quando me pai segurava um cinto pesado e dizia para dar conta da leitura até o fim do dia. O medo me ensinou a amar a leitura. Hoje meu pai esta morto e o cinto eu queimei. Leio apenas quando quero e espero que isto venha a pagar a minha bebida.

Vi aqueles que trabalhavam por não ter outra alternativa para alcançar a graça eterna, e era tudo tão escuro. Plantavam mais do que podiam comer. Davam uma parte aos animais e passaram a ter mais animais do que podiam comer. Com os animais viram que podiam plantar várias vezes mais do que poderiam comer. Não entendia por que faziam isto já que por mais pesado que fosse o cinto de Deus este não iria cobrá-los. Percebi então que trabalhavam para a satisfação de seu Pai, mas mais ainda para a satisfação de seus intestinos.

Quando meu pai berrava em minhas orelhas sentia o mau hálito que via para lá de sua boca e garganta - era os seus intestinos que eu ouvia. Por que diabos hoje agradeço aos seus intestinos pelo homem que me tornei? Um homem que enquanto o pai estava vivo leu metade do mundo e hoje se diverte em dizer que esta metade é justamente a podre e que a outra jamais irá ler porque não tem mais um cinto que o obrigue. Obedeço somente aos meus intestinos herdados de meu pai e as mulheres que lá sempre estarão.

Permanecer só porque não acredito mais na liberdade. Hoje foi um bom dia. Encontrei uma mulher que queria ver. Ela estava mais bela do que de costume. Eu via em seus olhos a vontade de me acompanhar pelo resto de meus dias. Seus olhos eram belos e tristes. Eu não tinha dúvidas e ela também não. Ela me disse: “Você é só, eu não. Eu jamais poderei dizer a todos que te amo sem magoar alguém, eu nunca fui só”. E assim falou: “Poderá me amar mesmo que eu te magoe? Não deixarei de ser boa aos seus olhos? E se não olhar mais para mim, minha beleza não mais existirá para ti? E se descobrir que pouco te importa que me veja, não pensará que é porque não precisa mais de mim, lembrará que é só e errou novamente? Não posso te acompanhar sem que deseje tornar-se novamente só.” Ela não poderia se desvencilhar do seu mundo sem provocar dor aos que estavam ligados a ela, e eu junto a eles, e sofrer por isto. Ela tem razão: preciso do bom, do belo e da verdade e dela não posso esperar isso. Continuo só.

Hoje escrevi:

Ela tinha uma pena verde perdida entre seus cabelos; lisos e pretos escorriam pelo chão. Estava preocupada com as suas coisas. Estava preocupada com as coisas dos outros que nem conhecia, tantos que nunca conhecerá. Estava preocupada em ajudá-los a terem consciência - lhes transferir “a consciência” que ela que não os conhece tem. Dar-lhes consciência do que são é a maior das missões e sorte dela não ter esta consciência porque é frágil e não suportaria o peso. Que fardo é ter consciência. “Vocês já sabem quem são! Façam algo!” Quanto sangue escorrerá daí? “Quero apenas que tenham consciência”, ela sente. Em segredo os odeia? “Não consigo dormir, há tanto para ser feito. Tenho consciência!” Em segredo os ama?

Eu durmo deliciosamente porque me resigno apenas à escrita e quero como missão moldar máscaras, e quem sabe dá-las.

21.1.07

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste...


Vinícius de Moraes



...
acontece também que ela é triste. Quem sabe um dia eu volte a lê-la e render-me novamente a sua tristeza.


31.12.06

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado sem carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser, novo
até no coraçao das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?).

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.

Dentro de você é que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Drummond

30.12.06

De onde vem esta angustiante necessidade de amar,
De ter alguém que não pode libertar-se de ti?

23.12.06

O guardador de rebanhos - VIII

[213]


Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.


Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem


E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.


Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!


Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três,
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz


E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz no braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras nos burros,
Rouba as frutas dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.


A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.


Diz-me muito mal de Deus,
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia,
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.


Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que as criou, do que duvido" -
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada,
se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres".
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
..........................................................................

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.


A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.


A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.


Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.


Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade


Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.


Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
.................................................................................

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
....................................................................................

Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


Alberto Caeiro 08-03-1914

notas de um dia de cão. esse é o nome do livro. um livro a duas mãos.