31.12.08

Ofertas de fim de ano!

Manhã do dia 31 de dezembro. Manhã já cansada. Amanhã, manhã não será o período que vai do alvorecer até o meio-dia, será um novo começo. Será o começo de uma época de realizações. É a esperança.

2008 poderia ser melhor. Como também 2007. De 2003, 2004, 2005 e 2006 tenho lembraças vagas e algumas datas importantes, mas sei que faltou algo. Mais para trás, tem alguma coisinha boa ou outra que não esqueço mais. Coisas como o primeiro beijo, passar no vestibular, por o pé no mar pela primeria vez. É o que tenho de herança, o pouco que me contenta. Não posso vivê-las novamente. Meu coração nunca mais vai acelerar-se como há 10 ou mais anos. Lembranças servem para serem lembradas, e só. A vida, em resumo, poderia ter sido mais, ou sem resumo, é apenas isso mesmo. Não sei por que uma mudança de dia poderia mudar esse estado de coisas ou aliviar a angústia.

Espero para esse ano de 2009 menos promessas. Menos esperança. Menos universais. Menos seres imaginários. Menos tempo na frente do computador. Menos tempo escrevendo. Menos idealizações. Menos sonhos. Menos grandes e impossíveis amores. Menos amanhãs. Mas, mais ação, vida e manhãs.

28.12.08

Fim de ano

A satisfação que tive foi a de cumprir os trabalhos que me destinei. Feitos como eu quis, quase todos. Mas foram feitos, e é isso o que importa. Vivo melhor por isso.

Ano de aprendizagens. Finalmente sei como se faz para perder um grande amor. E a reboque aprendi como não se render a um novo grande amor que não é o grande amor que quero que seja meu grande amor. Vive-se menos por isso, mas vivo melhor. Poupo meu coração.

Ano de franquezas. Fiz o que devia ter feito há muito, falei verdades e enfrentei pessoas. Sou mais mal visto hoje por isso, mas nunca dormir tão bem três dias depois de cada enfrentamento com os fatos.

Viajei bastante. Sempre a trabalho. Góias, Rio e por boa parte de Minas. Minas são muitas e pelo que vi e provei, tenho certeza que estão por todo o nosso portentoso país, obra por terminar, mas já magnífico: negras, louras, morenas, índias, misturadas.

Escrevi bastante e fiz um novo layout para o blog.

Consolidei novas e velhas amizades.

Vou escrever novamente antes do ano acabar.

24.12.08

Natal

O guardador de rebanhos - VIII

[213]


Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.


Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem


E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.


Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!


Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três,
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz


E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz no braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras nos burros,
Rouba as frutas dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.


A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.


Diz-me muito mal de Deus,
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia,
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.


Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que as criou, do que duvido" -
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada,
se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres".
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
..........................................................................

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.


A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.


A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.


Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.


Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade


Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.


Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
.................................................................................

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
....................................................................................

Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


Alberto Caeiro 08-03-1914

22.12.08

A utilidade pode fundamentar o esquecimento dela mesma?

Eu sabia que tinha algo escrito a esse respeito em algum lugar.

Qual a justificativa de perseguir algum projeto em especial? Um projeto deve ter, segundo alguns, relevância teórica e não sei bem o que é isso. Para alguns o critério é pragmático, o que é, servi para algo. Para outro deve ser uma justificativa existencial ou sirva, antes de tudo, para quem o faz. Eu, como cientista social, surgi e guiei-me primeiramente pelo segundo critério, motivo pelo qual ingressei nas ciências sociais. Era óbvio! Uma ciência deste tipo daria as respostas para os dilemas de nosso país e mundo. Estas respostas eram necessárias e transcendiam a satisfação e prestígio individuais, sendo antes um dever. O cientista social era um indivíduo que havia escolhido contribuir para um bem maior, a sociedade, da mesma forma que os engenheiros, médicos, operários, lixeiros fazem também a sua parte – se bem que, se todos nós cientistas sociais pararmos com nossos trabalhos não será nada comparado ao caos causado por um mês de greve dos lixeiros de qualquer cidade. A despeito disso ser verdade ou não, a despeito dos que acreditam que as ciências do social não podem dar respostas suficientes a prestarem contas a todo esforço já feito dentro das suas extensas fronteiras por uma massa de homens e mulheres, afirmo que minha crença se mantém e que além de me manter com os pés firmes no segundo critério, como está claro, não pretendo me desvencilhar do último critério, justo o que poucos de nós admitem. Sobre o primeiro critério, penso que a justificativa maior para que ele seja a justificativa que deve nortear qualquer trabalho acadêmico seja evitar que não andemos em círculos. Ter conhecimento da bibliografia que discute seus problemas teóricos é o mínimo que se espera para um projeto que traga algo a mais e resolva coisas que outros - muitos outros em quase todas as situações -, não deram conta de dar respostas convincentes ou que não sejam mais válidas para hoje. Não irei citar autores ainda; temos muito espaço para isso, certamente escreverei muito sobre isso. Os três pontos colocados, brevemente e porcamente, já dão o que preciso para lançar a pergunta que faço e que cientistas sociais não fazem muito para si: o que espero das ciências sociais e o que considero que elas sejam, pelo menos o que seja o meu campo especifico dentro das inúmeras frentes de estudo, quanto irá determinar em meu trabalho? E mais, e fundamentalmente, por que sigo essa orientação? A resposta que espero de cada um é a mesma que espero de mim: que eu tenha a partir dessa reflexão clareza do que sou e faço. Não espero nada politicamente correto e retórico.

Irei tentar me pautar daqui em diante pelo que não espero, pela clareza e sobriedade.

14.12.08

Sobre ser útil ou sobre a utilidade

Vou dar início a uma discussão que não sei de onde vem.
Como início, vou começar pela própria origem e significados.

do Lat. utile

adj. 2 gén.,
que serve para alguma coisa;
que pode ter algum uso ou serventia;
proveitoso;
vantajoso;
prestável;
determinado por lei de trabalho (dia);

s. m.,
utilidade;
aquilo que é útil.

juntar o - ao agradável:
aumentar um benefício com outro.

notas de um dia de cão. esse é o nome do livro. um livro a duas mãos.